Bror Hail
Como eu vi Israel na década dos 50
Meu primeiro contato com Israel na época dos anos de 50 se deu no meu caminho para lá em 1951. Escolhido por meu movimento juvenil Gordonia a fazer parte do grupo de madrichim que foi enviado para fazer um ano de estudos e preparação no Machon Madrichim Chuts Laaretz, partimos em viagem maritima em Outubro deste ano, primavera no Brasil, vesperas de inverno em Israel.

Em Marshelha, França trocamos o navio francês que viajamos do Rio de Janeiro e subimos no navio Artza que nos levou a Israel. A primeira emoção foi se encontrar num navio israelense, com marinheiros israelenses, que a lingua oficial era o Ivrit (Hebraico), isto sómente 3 anos após a proclamação do Estado de Israel. Mas aí nos deparamos, pela primeira vez, com a realidade israelense: ao navio foram trazidos dezenas e talvez centenas de olim chadashim (novos imigrantes) de paises da Africa do Norte. O navio era pequeno, a maioria foi alojada nos porões e nos defrontamos com aquela visão dificil de homens, mulheres e crianças numa promiscuidade muito grande, fazendo aliyah para Israel , depois que sairam fugidos de seus paises.

Para mal do pecado nos pegou um violento temporal, o navio sofreu danos e tivemos que passar 3 dias em Messina, Sicilia, para consertos . A viagem ao inves de quatro dias se prolongou por 7 dias e as condições dos olim durante o temporal foram terriveis: vomitos, mal estar.

Quando chegamos no porto de Haifa , após a emoção de ver Haifa, Israel `a nossa frente, os olim foram recebidos pelas autoridades, pela Sochnut mas também por um grupo de voluntários que montados em um caixote despejaram DDT sobre eles. Este procedimento foi talvez necessário por motivos higiênicos e em favor dos proprios olim, mas até hoje, quase 60 anos depois, eles não esquecem a humilhação.

Mas ainda no navio, nos deparamos com mais dois aspectos da realidade israelense dos anos de 50: a independência recem havia sido proclamada, o pais passou por uma guerra sangrenta, centenas de olim chegavam quase que diariamente ao porto de Haifa e os meios financeiros eram escassos. O pais vivia num regime de racionamento (tzena) e mantimentos fundamentais dependiam dia a dia do navio que trazia ou não – trigo, acucar, oléo etc. Nestas situações sempre aparece o ”Mercado Negro”. No país os policiais subiam nos onibus e revistavam todos os passageiros para ver se estavam traficando ovos, carne, açucar, café, etc.

Voltando ao nosso navio de viagem, um grupo de judeus que embarcaram em Marselha resolveram contrabandear uma quantidade enorme de salames e como o navio encalhou por alguns dias, eles resolveram pendurar os salames (para nao estragarem) em nossa cabine. Somente após nossas ameaças que iriamos acabar com os salames, eles resolveram guarda-los. Mas assim ficamos conhecendo um dos grandes problemas dos primeiros anos de 50 : a falta de mantimentos (1 ovo por dia, salame que nao era de carne, queijo que nao era de leite), o consequente racionamento e o tambem consequente Mercado Negro.

Mas ainda voltando ao navio e ao temporal, nos deparamos com mais um aspecto de Israel - um grupo de religiosos, apavorados pelo temporal, resolveram mandar um telegrama para o Munkatsher Rabi e pedir que ele rezasse tehilim para parar o temporal….

Os anos de 50 foram anos difíceis em Israel. O inverno de 51 foi rigorosissimo, os olim foram instalados em barracos nos quais as chuvas e o vento entravam por todos os lados, a neve e a lama cobriam os caminhos que não existiam. Nós, os jovens do Machon, fomos lá ajudar um pouco, mas centenas e milhares de cidadões do país se mobilizaram para vir ajudar, se criaram ulpanim para o estudo de hebraico, procurou-se instalar um serviço escolar e um serviço médico e assim por diante.

A Guerra de Independência terminou, e então aparecem of “fedayunim”, terroristas arabes que penetravam nas cidades e aldeias para roubar e matar. A situação econômica era alarmante . Ja falamos sobre o racionamento, o Mercado Negro, mas havia tambem a inflação, a falta de trabalho, a desvalorização da lira israelense, a falta de investimentos.

Nós tivemos a satisfação de testemunhar e de participar nesta tremenda luta, que a principio foi de sobrevivencia, e foi se transformando na basificação de Israel. Nós, neste caso, a minha esposa Ziva que tambem esteve no Machon nos anos 55-56 e eu quando juntos chegamos ao pais, a Bror Chail em Janeiro de 58.

Temos que assinalar a soberba personalidade e liderança de figuras como Ben Gurion, Levi Eshkol, Pinchas Sapir, Golda Meir e tambem dos lideres de oposição como Menahem Begin, Yakov Hazan que com a visão extraordinária e a convicção no que estavam realizando, conseguiram no decorrer dos anos 50, construir uma nova realidade.

Ben Gurion foi o grande lider, o homem que viu 50 anos para a frente. Em 51, testemunhei em Jerusalem e em Tel Aviv as manifestações violentas contra Ben Gurion que resolveu pedir e recebeu indenizações da Alemanha. Apesar da tremenda oposição, ele soube impor a sua liderança e já nos anos de 50 a situação econômica e militar do pais se transformou. O racionamento foi abolido, as armas chegaram em quantidade e em 56 com a Guerra de Suez, a situação militar se tranquilizou. Ariel Sharon comandou o corpo de paraquedistas 101, que realizava incurções contra os 'fedayuns" arabes no Egito, Jordania e Siria e criou uma nova tradição do Exercito de Israel de "comandos" especializados e corajosos.

O aspecto cultural se desenvolveu especialmente nos kibbutzim: as musicas folkloricas, o festival de danças no kibbutz Dalia, o Seder de Pessach de cunho kibbutziano, as festividades religiosa de Shavuot, Sukot que se tranformaram em comemorações agricolas. Os anos de 50 foram anos dramáticos da criação do novo pais, anos difíceis, mas olhando de longe, anos romanticos e heroicos, nos quais a convicção de toda a população que participava da epopeia do novo judeu depois dos anos de galut (diaspora) e holocausto, anos que são lembrados até hoje com saudades.

O exercito, klitat haalyah (absorção de imigrantes), a modernissima agricultura, as novas fabricas, as escolas, os ulpanim,(lugares de estudos da lingua) as danças, as músicas, os teatros, as orquestras – tudo foi se creando com suor e lagrimas, entre decepcões e alegrias.

E mais um testemunho pessoal: quando chegamos em 58 a Bror Chail, ainda fomos morar em tzrifim,(casas de madeira) sem banheiros nem agua corrente, os chuveiros e as instalações sanit árias eram coletivas e nos dias de sol pelando no verão e lama ate os joelhos no inverno iamos de manhã e de noite ver as crianças nos batei-ieladim (casas de crianças).

Desde então, muita água correu no Jordão, todo o pais mudou, inclusive os kibbutzim, mas muito se deve aos anos de 50.

Avraham Cheinfeld
Bror Hail 2008
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