Bror Hail
Saudades do kibutz antigo

Do livro " Caminhos…. E Saudades" - Tzvi Chazan
Como já mencionei, chegamos à Bror Chail em 1957. Recem-chegados, cada um de nos procurou achar como melhor contribuir para o fortalecimento de nossa comunidade.

Cada um escolheu um nova profissão, e a mim me propuseram usar dos meus antigos conhecimentos no campo da contabilidade. Para isto eu precisaria conhecer o sistema financeiro do kibutz como um todo e conhecer de perto os seus diferentes ramos de produção. Não foi nada fácil, pois o ambiente do escritório de contabilidade, com seus antigos funcionários, era bastante hostil para mim. Mas com o tempo as coisas foram se ajeitando e com muita paciência e dedicação ao trabalho, passaram-se quase três anos. Na verdade foi um erro fatal de minha parte ter pisado naquele ambiente, o que não me deu absolutamente nada , mas me ensinou que mesmo no kibutz viviam pessoas completamente diferentes das fantasias sonhadas por mim, na época ainda do Movimento no Brasil.

Mas o que eu gostaria de ressaltar são as coisas boas vividas por mim no kibutz de então. Tenho boas lembranças de muito companheirismo, quando as pessaos estavam dispostas de ouvirem umas as outras. O interesse de uns pelos outros era notável, havia dedicação, empenho e eu acreditava nos lideres da época, aprendendo com sua experiência e orientação. Os problemas pessoais de cada um de nós eram acompanhados praticamente pela maioria da comunidade. Não havia distancia entre os companheiros e a expectativa de um futuro melhor estava sempre em pauta. Hoje, revendo tudo, avalio de uma forma bastante positiva o quanto de calor humano e conteúdo recebi nessa escola da vida que foi o kibutz antigo.

O romanticismo predominava no dia-a-dia. Novas páginas eram diariamente escritas sobre como a gente aprende a viver em conjunto, seja atravessando os campos, os pomares, os vinhedos, trabalhando nos galinheiros ou curral de vacas, seja no plántio de novas arvores, educando criancas e recebendo de volta para o nosso convivio familia nossos pais, vindo da diaspora. Parecia que isso nunca acabaria, e gerações e mais gerações nos acompanhariam neste projeto de vida.

Mas a realidade bateu à porta. O mundo evoluiu e se modificou, e tudo com ele. O kibutz tambem. O kibutz antigo deixou saudades. O kibutz novo, muito mais materialista, oferece independência economica à todos, mas acabou com a sociedade de amigos de então. Será capaz este novo kibutz de oferecer novos desafios a sua gente? O tempo dirá!

Ainda hoje, nesses dias de verao de 2005 conheço alguns ccompanheiros aqui que sonham que a situação volte a ser como era, na época do kibutz clássico de ontem. Mas são só sonhos, pois eles não tem nada a propor ou oferecer perante as novas ideias que surgiram e modificaram o kibutz no aspecto econômico e tambem no que se refere a suas antigas caracteristicas de companheirismo e solidariedade.

Por outro lado, tambem conheço companheiros que vivem aqui já há dezenas de anos. Não abandonaram o kibutz por motivos estes ou aqueles. Mas durante muitos anos cultivaram a idéia de tranformar o sistema de vida comunal do kibutz num outro esquema, menos exigente no aspecto social, na solidariedade, no “todos juntos”. Cada um por si e menos compromissos com o “todo”

Estarão eles certos? Novamente, só o tempo dirá!
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